Muito tempo atrás, quando comecei a trabalhar com a internet, tudo era manual. A conexão era discada: ou se liberava a linha telefônica para navegar, ou se ficava offline. Tínhamos uma sede genuína de aprender; nossa curiosidade era alimentada pelo novo. Cada novidade gerava uma corrida que levava meses, pois dependíamos de revistas técnicas para entender o que estava acontecendo.
O inglês era um “bicho de sete cabeças”. Hoje, é um estranho em um mundo que traduziu e regionalizou tudo. A tecnologia convergiu para que não precisássemos necessariamente dominar outro idioma, permitindo traduções simultâneas que aproximam as massas.
Nossa curiosidade nos impulsionava. Primeiro foi o Blender 3D, depois os navegadores, os jogos (mesmo sem hardware potente) e os apps de criação. Do Visual Basic ao Pascal e Assembler; dos interpretadores aos editores de texto “turbinados”. O Mac era uma raridade; hoje, a Apple é onipresente.
Éramos movidos por uma fome de dados que vinham com parcimônia. Tínhamos tempo para “fazer o upload” das informações para a mente. Hoje, o excesso é tanto que nos cansamos em 15 segundos e pulamos para o próximo post. Antes, ler, anotar e digerir era o natural. Agora, a exigência constante por performance nos obriga a priorizar a velocidade. O lado obscuro da IA, consumida como se fosse água, é que nosso cérebro não absorve nada. Não há tempo para aprender, apenas para correr. Não nos é dado o tempo de pensar.
Inclusive, vejo empresas penalizando quem para para refletir. Racionalizar, hoje, parece proibido.
Se a regionalização foi o maior ganho, a maior tristeza é ver todos buscando o menor esforço. Desaprende-se a viver, conversar e interagir. Meu medo é que estejamos nos tornando uma sociedade preguiçosa: sem a IA, ninguém pensa, ninguém fala, ninguém faz.
Hoje, antes de testar dez milhões de ferramentas, prefiro esperar para ver o que se consolida. Antes de aprender dez milhões de coisas inúteis, prefiro focar no que de fato faz sentido. Em um mundo onde tudo custa uma assinatura mensal de $10 ou $20 e os clientes exigem soluções imediatas (e baratas), meu diferencial é justamente o que tentam proibir: parar para pensar, discutir e realmente aprender.

